segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Ata sobre a Leitura da Metafísica de Aristóteles (5)

Local: Sala no 15º Andar do CFCH
Data: 20/10/2008 às 10h (6º Encontro)

Livro A (primeiro)

Início: pág.9 – 982ª - 5 (Reale)
Término: pág.15 – 983b 5 (Reale)

Capítulo 2

Quais são as causas buscadas pela sapiência e as características gerais da sapiência

Prof. Anastácio fez um resumo das principais idéias do capítulo 1 onde Aristóteles caracteriza o homem pela natureza e depois ele caracteriza as várias etapas do conhecimento que vai das sensações até a epistêmes.
Neste capítulo Aristóteles vai dizer quais são os princípios e causas que o sábio busca conhecer e vai historicamente falar dos filósofos antes dele, para mostrar que alguns filósofos atingiram certas causas e princípios mas não a totalidade ou seja vai mostrar a insuficiência do pensamento dos pré-socráticos até os platônicos.
Aristóteles sempre tenta conciliar o senso comum com as suas concepções filosóficas, ao contrário de Parmênides que vai mostrar que o senso comum está longe da concepção de sabedoria que seria a concepção de ser, ser uno. Aristóteles acha que esta tese é fantástica, mas se ela contradiz todo o senso comum ela deve ser colocada sob suspeita. Por isso ele apresenta as concepções de sábio do senso comum e fazendo em seguida a seguinte análise.
Para ele o conhecer de todas as coisas não é conhecer todas as ciências particulares, mas o conhecimento mais geral de todas as coisas, com relação as noções gerais por isso, para os homens são as coisas mais difíceis de serem conhecidas. O sábio é aquele conhece as coisas difíceis e que tem capacidade de ensinar, pois ensinar expressa a abstração e a reflexão.


Aristóteles vai fornecendo as pistas para identificar qual é o sábio, e que tipo de conhecimento ele tem, até chegar a noção dos quatro modos de dizer as causas primeiras.
No primeiro capítulo ele colocou que entre os conhecimentos os mais admiráveis são aqueles que não têm utilidade, pois os homens vão tentar conhecer, visando primeiro resolver os problemas imediatos, as necessidades e o conforto. O grande feito do homem é tentar conhecer mais as coisas superiores e não ficar só ligado as coisas de suas necessidades e conforto. Ele não chama de metafísica este tipo de conhecimento em nenhum lugar da metafísica, mas ela seria a ciência mais desnecessária.
Aristóteles vai sempre relacionando estas coisas de hierarquia, o mundo hierarquizado. Ele diz que aqueles que trabalham manualmente, por hábito, eles não têm o conhecimento, comparando com aqueles que sabem ensinar, e mais na frente ele vai comparando com o homem livre. Essa noção de liberdade em oposição ao homem que não é livre, por que o homem que não é livre ele é em função do outro. O homem que trabalha manualmente trabalha em função daquele que o ensinou.
Esta idéia já encontramos em Platão no Sofista, onde ele vai dizer que a dialética é a ciências do homem livre e parece que no começo do sofista, ele faz a distinção entre as artes de aquisição, produção e separação. A arte de aquisição é aquela que toma o que já existe, as artes produtivas são aquelas que fazem de algo que não é e passam a ser. Esta divisão é própria do homem que ele vai chamar de dialético, por isso que ele tem que ser uma homem que tenha uma certa visão. O homem livre é aquele que pode examinar estas articulações a partir do ponto de saída, depois chegar até as divisões das especificidades que se procura em direção de uma definição satisfatória. Pois esta é a arte dos homens livres que vai classificar as coisas segundo as articulações naturais.
A ciência tem que explicar o senso comum. Ela não só foi ao senso comum, mas ela é um aprofundamento do senso comum, pois, ele tem uma razão de ser. A primeira das características é conhecer as coisas segundo a totalidade, o homem universal, o homem mais geral e não o homem particular.
O homem enquanto todo, ele não é apreendido sensivelmente, mas na ordem dos princípios eu posso supor que aquilo que é mais distante de nós é prioritário em si mesmo em relação aquele que está mais próximo. O que se busca é o homem enquanto totalidade, e ai ele vai colocar o problema de se a substância homem existe em si mesmo.
A questão é que aquilo que está mais próximo é aquilo que se apresenta às nossas sensações, ou seja: a physis. E o que precisamos buscar é aquilo que está distante de nós, além da physis, que seria de alguma forma primeira do ponto de vista ontológica (isto na Metafísica). Tem que pensar a forma do homem como a causa de todos os homens. Entretanto se tomarmos as categorias, a coisa muda de figura, porque ele vai pensar estes princípios (ousía) como ser segundo, como se fosse a atividade do intelecto, o intelecto abstrai de todas as coisas, são duas noções bem diferentes. Podem ser reconciliáveis?
Para Aristóteles as ciências mais exatas são aquelas que possuem menos princípios e que há princípios e que estes princípios é que me permite conhecer as coisas e não através das coisas que eu poderia conhecer as coisas. As categorias são coisas só lógicas ou de algo ontológico? Mas se ele estiver falando de uma realidade real, ai seria o ponto de vista ontológico.

Ele fala primeiro que é a partir dos princípios que se conhece todas as coisas e que e que não é possível das coisas se conhecer os princípios e que o fim de coisas é o Bem. Apesar de ser uma passagem bem platônica, em outros textos, Aristóteles vai fazer uma crítica a noção de Bem, onde as várias formas do conhecimento a um Bem e esse bem não é unânime, (fazendo uma crítica a Platão para quem o Bem é total).
Desta forma para Aristóteles o objeto da investigação da filosofia é especular sobre os princípios primeiros e as causas. Aquele que se põe em perplexidade é aquele que não sabe daí o inicio da filosofia. Ele coloca o exemplo do eclipse, se todos nós estivéssemos na lua, o eclipse seria um fenômeno direto, mas o homem não esta na lua e ele tem que se colocar na lua e apesar de ele não ver o fenômeno diretamente, é capaz de pensar as causas destes fenômenos. Aristóteles tem a maneira de pensar as coisas segundo elas foram se desenvolvendo, por isso ele diz que de certa forma os mitos tentam explicar os fenômenos e aqueles que amam o mito reconhecem que não sabem por isso eles são de certa forma filósofos.
Esta forma de conhecimento, a filosofia, começou a se desenvolver quando já se possuía tudo de necessário e de conforto, neste sentido a filosofia não tem utilidade, não serve para nada. Servir é viver em função de outra coisa, de outro. Mas isto não tira o seu valor, pois ela tem um fim em si mesma, não somos nós que fazemos alguma coisa pela filosofia e sim ela que faz algo a nós mesmos. Se a filosofia é a busca de saber e mais nada, ela é a realização mais completa do homem, ela é aquilo que mais realiza o homem. E cada vez que conhecemos mais, por pouco que seja, mais conhecemos o que é o homem e daí realizamos mais o homem. Ao conhecer as coisas conhecemos o próprio homem e sua natureza.
Para Aristóteles o homem livre é um sábio em potencial e o filosofo em certo sentido é aquele que realiza toda potência do homem, mas não é todo homem que pode realizar. Ele tinha um espírito muito grego que tinham uma noção de desenvolvimento, de hierarquia, então o escravo embora não deixe de ser homem, ele não tem capacidade de grandes realizações. A medicina é uma ciência escrava da noção de saúde. Todas as ciências particulares em certo sentido são escravas, por isso ele está buscando a ciência primeira. Se o saber não fosse uma questão humana os deuses já tinham condenado esses homens a todas as desgraças, no livro XII ele vai dizer que se só há só uma ousía, essa ousía primeira seria o estudo da própria teologia e seria esta a ciência buscada. E reforçando, ele diz que todas as ciências são mais necessárias, mas nenhuma é superior aquela que busca as causas primeiras.
Ou seja, a metafísica propõe que se busque esta ciência, que busca entender aquilo que esta mais distantes de nós já que não temos conhecimento das sensações dessas coisas.


Capitulo 3

As causas primeiras são quatro e análise das doutrinas dos predecessores como prova da tese


Hoje os especialistas têm insistido na tecla de que não são quatro causas e sim quatro modos de se dizer as causas o que é mais coerente com Aristóteles quando ele diz: o ser se diz de muitas maneiras.

Existe uma ambivalência no conceito de ousía em Aristóteles. No livro VII ele vai examinar os 3 candidatos para ousía:

a. a matéria;
b. a forma;
c. a mistura dos dois (composto).

Nessa definição das características que ele vai fazer da ousía, uma vai privilegiar a matéria e outra a forma. A ousía que é a realidade mais real buscada de qualquer coisa, ele vai dizer que é preciso que a ousía seja subjacente aquilo do que estamos falando, neste sentido parece que a matéria é mais ousía do que a forma. É aquilo que esta por baixo. Eu não posso predicar em nada, pois ela é sujeito de todas as predicações.
Outra característica ele vai dizer que no primeiro sentido de causa, ele vai dizer que é essência ou o que era para ser. Ele usa estes dois termos, pois para ele, a ousía tem algumas características em que ela é substrativo, e tem algumas características de algo que subsiste por si só. Neste sentido a matéria não subsiste por si só. Ele precisa da forma. Mas será que a forma se subsiste por si só?
O lugar de Aristóteles é muito delicado, pois, ele esta tentando fazer uma crítica forte a toda hipótese inteligível, de que a realidade real são as formas, mas ao mesmo tempo ele não pode dizer que a realidade real é a matéria, porque a matéria não é cognoscível, ela só é cognoscível pela forma. É um problema que ele vai tentar resolver com o sínodo. Mas mesmo assim é problemático por que se a ousía não está na forma e não está na matéria, como é que pode está em uma coisa que é a mistura dos dois? Que é um problema da participação. Então sempre que ele falar da ousía ele vai falar com ambivalência, como algo que subjaz, mas algo que é por si e ai na primeira categoria já temos este problema, por isso ele usa dois termos.
Para Aristóteles não há corpo sem alma nem alma sem corpo por que uma é função da outra


A causa primeira se diz de quatro modos:

a) O que era ser ou o que era para ser. Aquilo que era ser. Formal.
b) Aquilo que é. A causa é matéria e substrato. Material.
c) A causa é movimento. O princípio de movimento.
d) A causa é o fim e o Bem.


Prof. Anastácio destacou a importância de analisarmos os termos em grego para que possamos nos aprofundar no texto, pois de outra forma só ficaríamos traduzindo uma coisa por outra e ficamos sem noção do que está sendo falado.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Ata sobre a Leitura da Metafísica de Aristóteles (4)

Local: Sala no 15o Andar do CFCH
Data: 13/10/2008 às 10h (5 Encontro)

Livro A (primeiro)

A sapiência e o conhecimento das causas

Início: pág.5 – 981ª - 10 (Reale)
Término: pág.9 – 982ª (Reale)

Prof. Anastácio informou que convidou o Prof. Trindade (UFPB) para passar um dia aqui e propôs a seguinte programação:

· Palestra aberta aos alunos do curso de filosofia;
· Lançamento do seu livro “A carta VII” na livraria Cultura;
· Encontro com o Grupo.

Lembrou que devemos nos cadastrar no grupo de estudo e para isso será necessário que todos abram o curriculo Lattes e lhe informe o nome completo, CPF e data de nascimento.

Após a leitura da ata anterior, Prof. Anastácio sugeriu iniciar a leitura pela pág. 5.

Experiência:

É o conhecimento adquirido a partir de todas as memórias decorrentes das sensações. No sentido das pessoas que sabem daquilo que estão fazendo pelas sensações. Não é experiência no sentido de experimento. A experiência produz a arte (técnica). A arte é a unificação da experiência, classificando-as. Ou seja, a arte é a abstração da experiência.

A experiência é o conhecimento dos particulares enquanto a arte é o conhecimento dos universais, por isso todas as ações e as soluções são aplicadas aos particulares. Estes dois processos não acontecem separados, com fronteiras bem delimitadas, mas existe uma faixa onde os dois processos podem atuar, são interligados.
Foi colocada mais uma vez pelo aluno Pedro a questão da tradução de técnica como arte. A tekhné (técnica) é muito mais ampla do que a arte (no sentido estético). Prof. Anastácio destacou que o vocabulário ainda está se formando e que o próprio Platão não utiliza em toda a sua obra as palavras de maneira uniforme.
A experiência técnica é a capacidade que ela tem de prever o seu resultado. A técnica e episteme já estão muito próximas. Neste texto não fica muito clara a diferença entre técnica e episteme.
Antes Aristóteles disse que a experiência é o conhecimento do particular e que a arte é o conhecimento do universal, agora ele começa falar de uma tonalidade do conhecimento. O conhecimento mesmo é a arte, a empiria é um tipo de saber, mas não é conhecimento. Por isso que traduções como: "a experiência é o conhecimento dos particulares" é muito ambígua, pois neste caso ela é sensação, é conhecimento generalizado. Na realidade todo conhecimento é um processo de generalização.


No indivíduo se estabelecem a experiência, as sensações; entretanto, conhecer mesmo é quando se começa a estabelecer as categorias. Existem duas atividades: as sensações e o pensamento e elas não estão separadas, elas estão misturadas, daí se vê a forte influência de Platão em Aristóteles.
Para Aristóteles, pessoas que não sabem ensinar, aquelas repetidoras de ações, que não entram no domínio dos "porquês", são apenas pessoas que se guiam pelo hábito: as pessoas tornam-se boas fazendo coisas boas, e tornam-se más fazendo coisas más. O hábito é quase como um impulso natural, entretanto os trabalhadores agem com arte, embora a sabedoria pertença aquele que possui um saber conceitual. Aristóteles distingue a natureza do saber entre o que "sabe fazer" (que tem know-how) e aquele que consegue ensinar/dizer/explicar (a autoconsciência do saber). Ele está tentando estabelecer o que é o conhecimento para depois propor se existe uma ciência que seria a mais alta ciência, que busca o saber pelo saber e que quer entender o ser. Este é o projeto dele: o ente enquanto ente, não é o ente particular visando algo particular; mas é o ente enquanto ente só para entender por que é o ser.
Aristóteles "valoriza" o conhecimento, ou seja, para ele é óbvio descobrir como se conserva os alimentos, mas não é óbvio descobrir um determinado tempero que dá um gosto fantástico neles. A filosofia é a menos necessária das ciências. A atividade filosófica precisa do ócio, pois se pensarmos nas ordens religiosas, elas precisam de uma mínima subsistência para poder meditar.
O conhecimento vai avançando, só que será este supérfluo que realiza o homem ou não.
As sensações são os instrumentos do conhecimento (não no sentido forte), ou seja, é a forma como se acessa o conhecimento (primário).
O campo da ética é o campo das coisas que podem ser assim ou não já o campo das ciências é necessário que seja assim.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Ata sobre a Leitura da Metafísica de Aristóteles (3)

Local: Sala no 15º Andar do CFCH
Data: 06/10/2008 às 10h (4º Encontro)

Livro A (primeiro)

A sapiência e o conhecimento das causas

Início: pág.5 – 981ª - 10 (Reale)
Término: pág.7 – 981b - 25 (Reale)

Após a leitura e aprovação das duas Atas anteriores, foi pedido ao Prof. Felipe Sodré que fizesse uma revisão do assunto discutido no encontro anterior, pois tinham ficado muitas dúvidas.
Após o início da leitura, o aluno Severino colocou que existe uma ambigüidade no termo “experiência” no texto de Aristóteles.
Aristóteles faz a diferença entre a experiência do ponto de vista “popular” e a experiência que produz uma arte/técnica, pois esta última seria aplicar nas causas. Apesar de destacar a importância do conhecimento das causas para a consolidação da arte, e que o saber e entender é mais próprio da arte que a experiência (dando a parecer que são contraditórias), ele tenta elucidar que são “sabedorias” complementares.
Os que conhecem as causas das coisas são aqueles que dão a direção. Os trabalhadores manuais agem sem saber o que fazem, agem por hábito. Por isso os primeiros são mais sábios. Para Aristóteles, em geral, o que distingue quem sabe de quem não sabe é a capacidade de ensinar.
Na linha 10, o texto volta à questão das sensações dentro da graduação do conhecimento e destaca que a partir delas se tem o conhecimento dos particulares. A partir daí aquele que primeiro descobriu alguma arte (ou seja, as causas), foi considerado sábio e superior aos outros; e que ainda se pode valorar os numerosos tipos de arte. Os sábios que descobriram as artes voltadas para o bem-estar são mais sábios do que aqueles que descobriram aquelas que estavam voltadas às necessidades. Posteriormente passou-se à descoberta das ciências que não visavam nem os prazeres nem às necessidades.